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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Conversa de Ônibus I




Usar o transporte público nem sempre é tarefa fácil. Geralmente os veículos não estão em bom estado, os horários são insuficientes e por consequência, viajamos como se fôssemos sardinha em lata.

Se você usa sempre a mesma linha, no mesmo horário, acaba por conhecer o motorista e o cobrador. O “bom dia”, ou o “boa noite”, já soam mais naturalmente; troca-se meia dúzia de palavras, e o caminho segue.

Além deles, os passageiros completam o quadro. Tem aqueles que vemos todos os dias, outros que são caras novas, e sempre me pego a pensar o que acontece em suas vidas quando apertam a campainha e descem do ônibus. Mas isso é conversa para outro dia.

Ônibus que é ônibus sempre tem muita conversa acontecendo. Sem querer, você fica sabendo de todos os problemas de saúde da senhorinha que está sentada atrás de você. Onde dói, o remédio que ela tem que tomar, o que o médico falou e se tiver mais cinco minutos da atenção da pessoa que está ao seu lado, é bem capaz que ela faça um diagnóstico do seu companheiro de viagem. A simpática senhora também nos presenteia com uma lista de parentes seus que já morreram de alguma coisa que no momento ela está sentindo e pergunta ao seu ouvinte se ele tem algum dos sintomas que ela enumera e, precavida que é, diz que ele deve fazer um check-up assim que tiver uma oportunidade!

No mesmo transporte coletivo também sempre estão aquelas duas “comadres”, que às vezes combinaram de percorrer juntas o trajeto, por qualquer que seja a razão, e em outras acabam se encontrando, ao acaso, depois de muito tempo sem se verem. Ainda que diferentes os motivos do encontro, há entre eles um ponto em comum: elas sabem absolutamente tudo sobre a vida de todo mundo. Inevitavelmente, meu amigo, você também passará a saber de tudo, porque a conversa entre elas é animada e não fazem questão de economizar nos detalhes. Assim, ficamos sabendo quem está com quem e quem se separou; que o filho da “Fulana” brigou na escola e a filha da “Beltrana” arrumou um namorado esquisito; que “Ciclaninha” veio contar umas fofocas sobre a sogra e ela disse que não queria saber, pois o-de-ia gente que fica falando da vida dos outros.

Outra figura que faz parte do cenário é aquela pessoa que tem um desejo incontrolável de compartilhar seu gosto musical com os demais passageiros. Então, para que todos possam curtir juntos, faz questão de colocar uma música bem bacana para tocar em seu celular, sem os fones é claro, com o volume do aparelho em sua potência máxima. Pronto, a festa “está formada” e todo mundo pode “curtir um som” e aproveitar “a vibe”.

E por falar em celular, um espécime interessantíssimo desse universo tão particular, é aquele que atende seu celular e acredita que sua conversa é de interesse geral. E por que não? Afinal de contas, todo mundo quer saber sobre a briga de ontem à noite com aquele cachorro-sem-vergonha-sem-coração-que-não-sabe-o-que-está-perdendo-que-acha-que-pode-fazer-tudo-o-que-quiser. E nesse momento, formam-se dois grupos: o dos curiosos, que querem saber mais detalhes da mencionada briga, e o daqueles que desejam que a tal ligação seja encerrada o mais rápido possível, pois não têm qualquer interesse no desenrolar dos fatos.

Mas entre todas as pessoas, tem sempre uma, às vezes mais de uma, que chama bastante atenção dos demais. Ainda que deseje parecer invisível, o passageiro leitor é sempre objeto de curiosa observação.

Alguns passageiros-leitores já desenvolveram algumas habilidades especiais e conseguem ler, mesmo quando estão em pé; outros, no entanto, só desfrutam do prazer da leitura quando sentados. Qualquer que seja a situação, tão logo o leitor pousa seus olhos sobre as páginas, tudo desaparece: não há mais motorista ou cobrador; a senhorinha, as comadres, o som da música e a conversa ao celular vão se afastando, até se tornarem personagens de um filme mudo.

Assim que pega seu livro, e se transporta para um novo mundo, inevitavelmente, os olhares se voltam para ele e pescoços se esticam para ver a capa, o título e tudo mais que a vista puder alcançar. E, invariavelmente, sempre há alguém que o olha intrigado, como se perguntasse: mas que raios está fazendo? E a resposta é simples: ele é o único passageiro que faz do seu caminho uma viagem, não importando qual seja o seu destino.


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Imagem: We Heart It






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