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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Conversa de ônibus III - Das lições que aprendemos


Imagem: We Hert It

Começo a acreditar que tenho imã para senhorinhas e senhorzinhos que gostam de um bom dedo de prosa, principalmente quando estou em filas de banco ou em um ônibus. A última dessas conversas foi com a simpática Dulce (não me lembro do seu nome, mas vou chama-la assim, pois combina com a imagem que tenho dela).

Entrei no ônibus e havia apenas um lugar disponível, ao lado de Dona Dulce, toda colorida em seu vestido estampado de flores, sapatos vermelhos, brincos, colar e pulseira de bolas e claro, maquiada. Disse bom dia, pedi licença, e, tão logo me acomodei, ela já me disse:

- Bom dia! Nossa, que moça “cherosa”!
- Obrigada, respondi em agradecimento.
- Ah! Eu adoro um “perfuminho”. É tão gostoso a gente ficar com cheiro bom, né?
- É sim, respondi.

Empolgada pela conversa, ela abriu sua bolsa e de lá tirou um frasco de perfume. Olhou pra mim, sorriu e então começou a se perfumar: um pouquinho atrás das orelhas, outro tiquinho nos pulsos e uma última gota no pescoço.

- Eu estava levando para minha irmã, de presente, mas como esqueci de passar o meu perfume em casa...

Ela me disse isso rindo, de um jeito todo divertido e eu ri também. Continuamos nossa conversa sobre perfumes, cremes e toda sorte de produtos de beleza de que ela, ou eu, pudemos nos lembrar. Algum tempo depois, tirou da sacola um chapéu e um cinto de crochê, feitos por ela. Em seguida, me perguntou:

- Você gostou?
- Muito bonito, respondi.
- Aprendi a “crochetar” esse ano. Esse chapéu e o cinto fiz para dar de presente a uma amiga.
- Eu gosto muito de trabalhos artesanais – disse a ela.

Dulce me contou sobre suas aulas e, depois de ouvir sobre sua movimentada agenda, pedi licença para ler um pouco. Ela sorriu e disse que tudo bem, mas antes que pudesse chegar ao fim da segunda página, minha companheira de viagem decidiu que era hora de voltar a conversar e falou:

- Você conhece o circo “Tal”?
Balancei a cabeça dizendo que não.
- Era do meu tio – continuou. Quase toda minha família trabalhava ali: eu, minha irmã, meus pais, tios e primos.

Enquanto ela me contava sobre o circo, percebi que seu tom de voz mudou, que seu olhar se perdeu, como se estivesse procurando algo que já não estava mais ao alcance das mãos. Suas palavras estavam banhadas em saudade. Depois de uma pausa, Dona Dulce retomou o seu relato:

- Nós viajávamos pelo Brasil todo. Era muito difícil, mas muito gostoso. Quem me ensinou a ler foi minha mãe, pois como não tínhamos parada, as crianças não iam à escola.
- E do quê a senhora mais gostava?
- De viajar. O circo era bom, mas viajar era a coisa mais gostosa!
- A senhora é um pouco cigana? Digo rindo.
- Eu sou sim. Todo mundo deveria ser. A gente não consegue levar todas as coisas pra todo canto e se ficar sempre no mesmo lugar acaba se acomodando. Se todo mundo fosse cigano, as pessoas aprenderiam que as boas raízes são aquelas que temos no coração, só essas eu posso carregar comigo, pra qualquer lugar onde eu for.



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