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terça-feira, 31 de maio de 2016

Conversa de ônibus IV - Feliz Vida

Imagem: We Heart It

Em minhas idas e vindas diárias, andando de ônibus de um lado para o outro, aproveito o tempo da viagem para a leitura e também para observar as pessoas que estão comigo.

E nesse vai e vem, encontrei alguém que chamou minha atenção logo na primeira vez em que pus meus olhos nele. Não saberia dizer exatamente qual a razão de tê-lo tornado como objeto de minha atenção, mas se fosse arriscar um palpite, diria que era a sensação de silêncio que ele transmitia.

Observei-o durante muito tempo, tanto que sabia que o encontraria sentado do lado direito do ônibus, usando, invariavelmente, calças jeans, camisas de tons claros, com as mangas dobradas, meias brancas e tênis e uma bolsa a tiracolo, do tipo carteiro, de couro marrom, já gasta; sabia também que a barba estaria sempre bem aparada e que os cabelos, já brancos, escondidos sob um boné de cor cinza.

Tentei praticar telepatia para saber o que estaria pensando, mas como não obtive sucesso em minha empreitada parapsicológica, um dia, em fevereiro deste ano, tomei coragem e, aproveitando que o assento ao seu lado estava livre, sentei-me a seu lado. Devorei as últimas páginas do livro que estava lendo, toquei em seu ombro e disse:

- Boa noite! O senhor já reparou que somos companheiros de viagem há muito tempo?

Ele riu e respondeu:

- Sim. Sempre vejo você nesse horário, está sempre lendo.

- O senhor gosta de ler?

- Gosto sim, mas "ando com a vista fraca".

- Se eu lhe desse esse livro,  alguém o leria para o senhor?

- Eu consigo ler um pouquinho por dia.

Entreguei-lhe o livro, o que o deixou bastante surpreso, mas percebi que também ficou feliz.

- Meu nome é José Simão e o seu?

- Lívia Carolina.

- Quando eu terminar de ler o livro, eu devolvo pra você.

- Não precisa. É um presente para o senhor.

Depois dessa primeira conversa, meio desajeitada, sempre que o encontrava, sentava-me ao seu lado e instantaneamente iniciávamos um animado bate-papo, que começava com os resultados dos jogos do campeonato paulista de futebol e terminava com ele me contando o que faria se ganhasse na Mega Sena.

Deixamos de ser dois estranhos que apenas dividiam o mesmo meio de transporte e passamos a compartilhar nosso tempo e também nossas histórias.
                                                                     
Hoje, 31 de maio de 2016, José Simão, pernambucano, militar reformado, que chegou em Sorocaba no dia da final da Copa do Mundo de 1970, pai de dois filhos e que aguarda a chegada do primeiro neto, que pega 8 ônibus por dia para trabalhar, pois não gosta de ficar em casa, que adora doces, mas não pode comer por conta da "maldita diabetes", palmeirense, que carrega na bolsa um documento antigo com uma foto em que usa  terno e gravata “do tempo em que era galã”, completa 84 anos.

Hoje não nos encontraremos para que eu possa dar-lhe os parabéns, pois já não mais utilizo a mesma linha de ônibus. Mas eu gostaria de agradecê-lo pelas conversas, pelo riso, pelas histórias, pela demonstração de coragem e pela vontade de viver, por achar graça da maneira como o abordei e por ter aceitado dividir parte do seu tempo comigo. 

Quero desejar, que hoje, ele vista seu terno e coloque sua gravata, coma o brigadeiro e o bolo que tanto gosta e que a maldita diabetes vá às favas; que o filho de quem tanto se orgulha venha dividir com ele mais este ano de vida. Desejo, que com ou sem os números certos da Mega Sena, possa ainda realizar todos os sonhos que carrega em seu coração. E que novos sonhos venham, ganhem asas e cheguem aos céus. Feliz vida, José Simão!

  

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