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terça-feira, 7 de março de 2017

Uma valsa no metrô de Munique



Hoje pela manhã, enquanto tomava meu café, li um texto da escritora Martha Medeiros (O isopor e a neve), no qual ela diz que “as coisas sem significado são tão raras, acontecimentos gratuitos costumam ser tão despercebidos que, se você percebe, ganha o dia”. Imediatamente me lembrei de um desses momentos inesperados que vivi em uma viagem de férias.

Nós estávamos em Munique, eu, meu marido, e um casal de amigos com quem viajamos para a Alemanha. Naquele dia, cumprindo nossa extensa programação de passeios, estávamos no metrô e, quando chegamos à estação Marienplatz, percebemos que todos os passageiros desembarcaram. Nós quatro, cujo conhecimento da língua alemã se resumia ao bom “bom dia”, “obrigado” e “com licença”, permanecemos dentro do trem, até que um rapaz veio nos dizer que todos deveriam sair.

Assim que pus meus pés na plataforma fui tomada por uma emoção que fez deste um dos meus três momentos favoritos de toda viagem. Dos alto falantes daquela estação, soava uma linda valsa, que imediatamente reconheci como "Emperor Waltz": a Valsa do Imperador. Assim que me dei conta da música, senti que meus pés começaram a bater no compasso daquela melodia.

Minha vontade era dançar, mas como nem meu marido e tampouco meu amigo se mostraram entusiasmados com a ideia, fechei os olhos e me deixei levar pela conhecida contagem de três tempos da valsa.

Um, dois, três... e foi como se a música passasse a soar de dentro de mim. Um, dois, três... e não estava mais no subsolo de uma cidade alemã. Um, dois, três... um salão de baile, músicos, violinos, um vestido longo e esvoaçante.

Um, dois, três... e um giro. Um, dois, três...um rodopio. Outro giro, e mais outro, rodando na ponta dos pés, rápido e depois devagar, com os ombros alinhados, a cabeça inclinada com leveza, acompanhando cada um dos acordes daquela valsa doce e ao mesmo tempo impetuosa. Um, dois, três... um, dois, três...

O barulho dos freios do metrô que se aproximava me trouxe de volta à estação. Enquanto embarcávamos, percebi as sutilezas daquele acontecimento gratuito.

Guardei comigo toda aquela emoção simples, delicada e verdadeira que ele me proporcionou. Ganhei o dia. E cada vez que me deixo embalar pelas sensações que, apesar do tempo, permanecem tão vívidas, ganho novamente. Não apenas o dia, mas a certeza de que raras não são as coisas difíceis de se encontrar, mas sim aquelas que só podem ser vistas com os olhos do coração.
  

  

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